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Mostrando postagens de outubro, 2025

O salão dos intocáveis

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Era uma vez uma República que gostava de repetir, em discursos solenes, que ninguém estava acima da lei. Essa frase ecoava nos salões de mármore, nos auditórios do Judiciário e nas campanhas institucionais transmitidas em rede nacional. Mas, longe das câmeras, a política seguia outro roteiro, mais silencioso e muito mais revelador sobre como o poder realmente funcionava. No topo da pirâmide institucional, juízes vestiam togas que simbolizavam imparcialidade. Suas decisões moldavam destinos, derrubavam governos, salvavam ou condenavam projetos inteiros de poder. Ao redor deles, orbitava um ecossistema discreto e eficiente. Em bairros nobres das grandes capitais, escritórios de advocacia prosperavam, muitos comandados por esposas e parentes próximos desses mesmos magistrados. Oficialmente, nada de errado: profissionais qualificadas, contratos privados, mercado livre. A Procuradoria-Geral da República, guardiã da lei, carimbava tudo como “dentro da normalidade institucional”. A história s...

Encarando o mundo como ele é, não como deveria ser: a arte da política sem ilusões

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Há uma distância brutal entre o mundo como ele é e o mundo como gostaríamos que fosse. Essa cisão é, talvez, o primeiro dilema de qualquer um que deseje compreender ou atuar na política com algum grau de realismo. Em vez de se prenderem a utopias ou a idealismos inócuos, os grandes estrategistas do poder, ao longo da história, foram aqueles que souberam navegar as marés da realidade concreta — com todas as suas contradições, ambivalências morais e imperfeições humanas. Essa visão crua e sem enfeites da política tem seu maior expoente em Nicolau Maquiavel, que, em O Príncipe, rompe com a tradição filosófica que subordinava a política à moral. Para ele, governar não é um exercício de virtude, mas sim de cálculo. Maquiavel foi explícito ao dizer que um líder deve aprender a não ser bom quando as circunstâncias exigirem o contrário. Em outras palavras, política eficaz exige a habilidade de operar no mundo como ele é — povoado por interesses, ambições, traições e contingências — e não como ...

Virtude de fachada: quando a moral privada se disfarça de moral pública

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A distinção entre moral pública e moral privada não é apenas uma questão de foro íntimo versus comportamento social. Trata-se de um embate clássico entre dois códigos éticos que muitas vezes se contradizem e, em contextos de poder, servem a finalidades radicalmente diferentes. A moral privada diz respeito ao indivíduo em sua vida pessoal, guiada por valores como honestidade, lealdade, fé, compaixão. Já a moral pública, ligada à convivência coletiva e à administração dos interesses comuns, se constrói em torno de valores como justiça, transparência, legalidade e responsabilidade institucional. Confundir uma com a outra, ou pior, usar a imagem da moral privada como ferramenta de manipulação pública, pode ser não só enganoso, mas perigosamente eficaz na manutenção e legitimação do poder. Essa confusão entre moral pública e moral privada é particularmente útil aos políticos que desejam parecer virtuosos sem necessariamente agir com virtude. Um líder que exibe sua vida privada como modelo m...

O poder no fio da navalha

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A máxima de Lord Acton — “o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente” — não poderia encontrar terreno mais fértil do que na América Latina. A região, marcada por ciclos de autoritarismo, populismo e tentativas de consolidação democrática, parece encarnar com perfeição a advertência do pensador inglês. Aqui, o poder não é apenas instrumento de governo, mas um campo de disputa permanente entre a promessa de transformação social e a tentação da concentração sem limites. O caso brasileiro é exemplar. Desde a redemocratização, os presidentes eleitos convivem com a ambiguidade entre liderar dentro das regras institucionais e ceder à tentação de manipulá-las. Fernando Collor, que chegou ao poder como “caçador de marajás”, terminou caçado pelo próprio Congresso após um escândalo de corrupção. Luiz Inácio Lula da Silva, que emergiu como símbolo de esperança para as classes populares, viu seu partido ser tragado pelo escândalo do mensalão e depois pelo petrolão, ambos r...

A Rebeldia como caminho para a liberdade: o grito de Étienne de La Boétie

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A frase “Sede, portanto, resolutos a não mais servir e sereis livres” não é apenas uma exortação retórica: ela condensa uma das ideias mais provocadoras da teoria política clássica. Extraída do Discurso da Servidão Voluntária, obra escrita por Étienne de La Boétie no século XVI, essa afirmação carrega uma denúncia contundente contra o poder arbitrário e uma proposta radical de resistência pacífica: o rompimento voluntário com a obediência. La Boétie, amigo íntimo de Montaigne, escreveu seu tratado ainda jovem, e com ele lançou uma questão perturbadora: por que milhões obedecem a um só? Para o autor, o poder tirânico não se sustenta unicamente pela força — ele se apoia, sobretudo, no consentimento daqueles que se submetem. A tirania, portanto, só existe porque as pessoas permitem que ela exista. Nesse sentido, a liberdade não seria algo a ser conquistado com armas ou revoluções violentas, mas com uma simples decisão coletiva de recusar a obediência. O ponto central da crítica de La Boét...