Quando a justiça enxerga demais: poder, parcialidade e as consequências de tirar a venda dos olhos
A imagem da Justiça de olhos vendados sempre funcionou como uma promessa simbólica de imparcialidade. A venda representa a recusa em distinguir riqueza, poder, status ou influência, assegurando que todos sejam julgados apenas pelos fatos e pelas leis. Quando essa venda é retirada, no entanto, a Justiça deixa de ser apenas um ideal normativo e passa a refletir, com maior nitidez, as assimetrias reais de poder existentes na sociedade. As consequências desse gesto não são apenas jurídicas, mas profundamente políticas. Ao “enxergar”, a Justiça passa a reconhecer quem são os atores em jogo. Isso pode significar, em alguns contextos, sensibilidade social e correção de desigualdades históricas; em outros, abre espaço para seletividade, perseguições e proteção de interesses dominantes. Max Weber já alertava que o direito, longe de ser neutro, opera dentro de uma estrutura de dominação racional-legal, na qual decisões jurídicas tendem a reproduzir a ordem social vigente. Quando a venda cai, ess...