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O salão dos intocáveis

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Era uma vez uma República que gostava de repetir, em discursos solenes, que ninguém estava acima da lei. Essa frase ecoava nos salões de mármore, nos auditórios do Judiciário e nas campanhas institucionais transmitidas em rede nacional. Mas, longe das câmeras, a política seguia outro roteiro, mais silencioso e muito mais revelador sobre como o poder realmente funcionava. No topo da pirâmide institucional, juízes vestiam togas que simbolizavam imparcialidade. Suas decisões moldavam destinos, derrubavam governos, salvavam ou condenavam projetos inteiros de poder. Ao redor deles, orbitava um ecossistema discreto e eficiente. Em bairros nobres das grandes capitais, escritórios de advocacia prosperavam, muitos comandados por esposas e parentes próximos desses mesmos magistrados. Oficialmente, nada de errado: profissionais qualificadas, contratos privados, mercado livre. A Procuradoria-Geral da República, guardiã da lei, carimbava tudo como “dentro da normalidade institucional”. A história s...

A teia invisível do poder no Brasil

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Quando Balzac comparou as leis a teias de aranha, talvez não imaginasse o quanto sua metáfora se encaixaria na história política brasileira. Aqui, a teia sempre esteve armada: fina, quase invisível, estendida nos corredores do poder desde o período colonial. Ao longo do tempo, muitas “moscas pequenas” ficaram presas nela, enquanto as grandes aprenderam a atravessá-la sem sequer sentir o toque pegajoso dos fios. Imagine a cena: um país que nasce sob a lógica do privilégio, onde a lei chega antes para proteger a propriedade do que para garantir justiça. No Brasil Império, o escravizado que fugia era caçado com o respaldo legal do Estado, enquanto grandes proprietários moldavam normas conforme seus interesses. A República veio com promessas de igualdade, mas a teia continuou no mesmo lugar, apenas mais sofisticada. O nome mudou, o discurso se modernizou, mas a relação entre lei e poder permaneceu desequilibrada. Décadas depois, já em plena democracia, a história se repete com novos person...

A REPÚBLICA NÃO PODE TER SOBRENOME

A decisão do ministro Flávio Dino de proibir o repasse e a execução de emendas parlamentares para entidades do terceiro setor vinculadas a familiares de parlamentares ou assessores é um sopro raro de sanidade institucional no Brasil. Ao apontar que essa prática se aproxima de uma “apropriação privada do Orçamento Público”, Dino não está apenas corrigindo um detalhe técnico: está reafirmando um princípio que deveria ser óbvio em qualquer Estado minimamente civilizado — dinheiro público não pode virar extensão de família, influência e compadrio. O problema, porém, começa quando o país celebra a moralidade em um Poder e tolera a mesma deformação em outro. A indignação pública costuma ser rápida e legítima quando o assunto é Legislativo: emendas, ONGs, associações, repasses, convênios. A sociedade entende com clareza o que está em jogo: alguém com mandato direcionando recursos do povo para estruturas privadas ligadas ao seu próprio círculo. Isso fere o senso comum de justiça porque parece ...

O peso político da mentira: quando a dívida com a verdade se transforma em capital de poder

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A frase “Toda mentira contada é uma dívida com a verdade”, encapsula uma tensão fundamental da política: a mentira como instrumento de curto prazo, cujos juros, no entanto, sempre vencem. No jogo do poder, mentir é uma ferramenta recorrente – muitas vezes indispensável. Governantes, partidos e líderes constroem narrativas, omitem dados, distorcem contextos ou simplesmente falseiam os fatos para manter controle, mobilizar apoio ou desviar a atenção. A política moderna, especialmente em sociedades de massa e sob o reinado da comunicação em tempo real, tornou-se um terreno fértil para esse tipo de manipulação simbólica. Mas qual o custo dessa prática? Maquiavel, em "O Príncipe", já admitia a eficácia da mentira como recurso do governante, desde que o objetivo maior – a estabilidade do Estado – fosse preservado. Para ele, o governante precisava saber “entrar no mal quando necessário”, ainda que mantendo as aparências da virtude. A astúcia da raposa era tão necessária quanto a for...

A maldição do poder: quando os deuses riem do supremo

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Diz-se que, quando os deuses querem punir alguém, primeiro o presenteiam com poder. Depois, ficam observando — divertidos — enquanto esse alguém, embriagado pela própria grandeza, caminha em direção ao abismo. Essa máxima, muitas vezes atribuída a Eurípedes, parece não ser apenas uma alegoria antiga, mas um roteiro que se repete em diferentes épocas e palácios. E nos bastidores da política brasileira, onde a toga do juiz pesa tanto quanto a caneta do presidente, a velha tragédia grega parece ter encontrado novo palco. Durante muito tempo, o Supremo Tribunal Federal foi percebido como o bastião final da ordem institucional. Guardiões da Constituição, os ministros ocupam um espaço elevado na hierarquia da República — e, muitas vezes, na percepção pública, quase mitológico. Mas eis que, nos últimos meses, o noticiário começou a borrar esse verniz. Uma reportagem investigativa trouxe à tona o nome do Banco Master, até então mais conhecido no mundo dos negócios e dos bastidores de Brasília,...

O poder invisível da incerteza: como os líderes moldam o jogo político ao dominar o imprevisível

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Na política, poucas ferramentas são tão poderosas quanto a capacidade de controlar a incerteza. Em contextos onde fatos, interesses e alianças mudam como placas tectônicas, quem domina o fluxo do imprevisível conquista não apenas autoridade, mas também vantagem estratégica. A ideia de que incerteza é poder não é nova. Autores como Niccolò Maquiavel já reconheciam que governar envolve mais do que força ou legitimidade: envolve a capacidade de prever, manipular e moldar percepções. O governante prudente, dizia ele, é aquele que entende a fortuna — o elemento do imponderável — e aprende a dobrá-la a seu favor através da virtù. A política contemporânea aprofunda esse entendimento. A sociologia de Max Weber, por exemplo, ajuda a perceber como diferentes formas de dominação dependem de controlar o ambiente simbólico. Em governos burocráticos, controlar a incerteza significa deter informações; em sistemas carismáticos, significa controlar expectativas; e em democracias de massa, significa adm...

Na política, não há meio-termo: afagar ou destruir, segundo Maquiavel

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Na política, os sentimentos não são apenas secundários – muitas vezes, são irrelevantes. A frase “os homens devem ser afagados ou destruídos” é uma das mais brutais e reveladoras de Nicolau Maquiavel, pensador que melhor entendeu a lógica nua do poder. Ela aparece em O Príncipe, obra de 1513, que continua a ser leitura obrigatória para quem deseja compreender a engrenagem crua e eficaz do domínio político. Para Maquiavel, entre conquistar e manter o poder, há uma regra clara: ou você neutraliza o adversário com favores que o tornem dependente, ou o elimina completamente como ameaça. O meio-termo é perigoso, pois deixa espaço para a vingança. Essa visão pode parecer cínica, mas é essencialmente pragmática. Maquiavel parte da ideia de que o ser humano é movido por interesses, e não por virtudes. Governantes que apostam na benevolência pura ou na conciliação contínua, sem garantir sua própria segurança no processo, tendem a ser derrubados por aqueles que não têm os mesmos escrúpulos. A hi...

Nada é por acaso: o cálculo por trás dos acontecimentos políticos

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A famosa frase atribuída a Franklin D. Roosevelt — "Em política, nada acontece por acidente. Se acontece, pode apostar que foi planejado para acontecer" — revela uma faceta essencial do jogo político: a ação deliberada. Mais do que uma observação cínica, trata-se de um princípio-chave para entender como o poder é construído, mantido e, muitas vezes, manipulado. Em um campo onde cada movimento pode desencadear ondas de consequências, a espontaneidade genuína é quase sempre descartada. Na arena política, os bastidores são tão ou mais importantes que os palcos. O que parece ser um escândalo repentino, uma aliança improvável ou uma decisão polêmica de última hora geralmente é o resultado de longas articulações, negociações e cálculos estratégicos. Carl Schmitt, teórico político alemão, já advertia que a política é, antes de tudo, uma forma de distinguir o amigo do inimigo — e, nessa lógica, planejar é sobreviver. O improviso, se existe, é cuidadosamente roteirizado. Essa lógica s...

O Poder nu e cru: quando a política reduz pessoas a obstáculos

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A citação apresentada — atribuída ao romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas — sintetiza uma percepção sombria, mas recorrente, sobre a lógica do poder: a ideia de que, na arena política, indivíduos, afetos e princípios muitas vezes são substituídos por interesses, cálculos e estratégias frias. A frase provoca porque escancara algo que filósofos como Maquiavel, Hobbes e até sociólogos como Max Weber trataram sob diferentes perspectivas: a política, quando reduzida ao seu núcleo mais duro, tende a ultrapassar a moralidade cotidiana. A frase “em política, não existem homens, mas ideias; não existem sentimentos, mas interesses” traduz bem a racionalidade instrumental descrita por Weber, para quem a ação política está frequentemente subordinada a fins específicos. Esse deslocamento do humano para o estratégico é também observado em Maquiavel, que enfatizava que o governante deveria agir não conforme o que é idealmente bom, mas conforme o que garante a estabilidade do poder. Par...

Nada é por acaso: o cálculo por trás dos acontecimentos políticos

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A famosa frase atribuída a Franklin D. Roosevelt — "Em política, nada acontece por acidente. Se acontece, pode apostar que foi planejado para acontecer" — revela uma faceta essencial do jogo político: a ação deliberada. Mais do que uma observação cínica, trata-se de um princípio-chave para entender como o poder é construído, mantido e, muitas vezes, manipulado. Em um campo onde cada movimento pode desencadear ondas de consequências, a espontaneidade genuína é quase sempre descartada. Na arena política, os bastidores são tão ou mais importantes que os palcos. O que parece ser um escândalo repentino, uma aliança improvável ou uma decisão polêmica de última hora geralmente é o resultado de longas articulações, negociações e cálculos estratégicos. Carl Schmitt, teórico político alemão, já advertia que a política é, antes de tudo, uma forma de distinguir o amigo do inimigo — e, nessa lógica, planejar é sobreviver. O improviso, se existe, é cuidadosamente roteirizado. Essa lógica...