Não dê ouvidos à serpente: a primeira aula sobre poder e manipulação

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A frase “não dê conversa com cobra” pode soar como um conselho simples, quase folclórico, mas carrega uma das lições mais antigas sobre poder e manipulação já registradas. Logo no início da Bíblia, a narrativa do Gênesis apresenta a serpente como símbolo da persuasão estratégica, alguém que não impõe pela força, mas conquista pela palavra. E é justamente aí que mora um dos fundamentos mais duradouros da política: o poder raramente começa com coerção, ele começa com convencimento. Ao observar essa passagem sob a lente da ciência política, é possível traçar paralelos com o pensamento de autores como Maquiavel, que já alertava que o governante eficaz precisa saber agir como “raposa e leão”. A serpente, nesse caso, encarna perfeitamente a raposa: astuta, paciente e habilidosa na arte de influenciar. Ela não obriga, não ameaça diretamente — ela planta uma ideia. E uma ideia, quando bem colocada, pode ser mais poderosa do que qualquer imposição. Essa lógica também aparece nas análises de Mic...

STF Futebol Clube: quando o árbitro também quer fazer o gol


Se o ministro Flávio Dino resolveu batizar a Corte de STF Futebol Clube, nada mais justo do que assumir de vez a tabela do campeonato. Afinal, se é para jogar bola institucional, que pelo menos a gente saiba qual é o regulamento — ou, melhor ainda, qual regulamento está valendo hoje.

No STF Futebol Clube, o estádio é monumental, o gramado é a Constituição e a torcida é composta por advogados, parlamentares, jornalistas, militantes digitais e comentaristas de sofá com diploma em arbitragem constitucional. O problema é que, às vezes, parece que o juiz também veste uniforme, escala o time e decide o placar antes do apito inicial.

Comecemos pelo impedimento. No futebol tradicional, não vale fazer gol estando à frente da linha da defesa. Já no campeonato institucional, descobrimos uma nova modalidade: o impedimento interpretativo. Se um inquérito nasce para investigar ataques à democracia, mas, no segundo tempo, passa a investigar qualquer coisa que cruze o campo, estamos diante de uma inovação tática. É o famoso “inquérito polivalente”, capaz de jogar na zaga, no meio e no ataque ao mesmo tempo.

O técnico dessa formação ousada atende pelo nome de Alexandre de Moraes. Segundo a narrativa crítica que circula nos bastidores, diante de suspeitas envolvendo contratos milionários ligados ao escritório de sua esposa e relações empresariais controversas, o jogo mudou de foco. Em vez de discutir o lance específico, decidiu-se revisar todo o campeonato. E, como todo bom treinador, ele também acumula a função de árbitro e comentarista oficial.

No STF Futebol Clube, o VAR funciona de maneira criativa. Ele revisa lances que ainda nem aconteceram, ignora outros que ocorreram no primeiro tempo e, quando a câmera se aproxima demais da área técnica, alguém desliga o telão por “excesso de luz”.

E há ainda o cartão vermelho. No futebol clássico, ele é aplicado por agressão, conduta violenta ou comportamento antidesportivo. Aqui, às vezes, basta opinar com entusiasmo excessivo. Discordou da arbitragem? Vermelho. Questionou o critério? Dois amarelos em sequência. Insistiu em falar? Suspensão por tempo indeterminado.

O curioso é que o discurso oficial sempre invoca o fair play. Todos são iguais perante as regras — inclusive os ministros, dirá a Constituição no artigo 5º. Mas, no STF Futebol Clube, existe a categoria especial dos “jogadores inquestionáveis”. São aqueles que, mesmo quando o lance gera suspeita — como no caso do ministro Dias Toffoli e sua antiga sociedade em empreendimento de luxo que cruzou o caminho de fundos empresariais controversos —, a torcida é orientada a manter o foco no jogo passado, quando o time salvou o campeonato de um rebaixamento institucional.

E não se pode negar: houve momentos em que o STF marcou gols decisivos contra ameaças reais à democracia. O enfrentamento de tentativas de ruptura institucional foi, sem dúvida, uma defesa espetacular na pequena área. Mas, em futebol, defesa brilhante não autoriza carrinho por trás no lance seguinte.

Outro detalhe tático fascinante é o recorte temporal das investigações. Em determinado episódio envolvendo a Receita Federal, a linha de análise foi traçada a partir de 2023. Antes disso, aparentemente, o campo estava gramado demais para ser inspecionado. É como revisar apenas os lances do segundo tempo e declarar que o primeiro não conta para estatística.

Mas o auge da sátira institucional talvez seja a sobreposição de funções. No futebol real, o juiz não sofre a falta, não conduz o inquérito sobre a falta e não julga o próprio recurso contra a falta. No STF Futebol Clube, essa versatilidade impressiona. É o sistema “três em um”: vítima, investigador e julgador — tudo no mesmo uniforme.

A imprensa, nesse cenário, assume o papel de comentarista chato que insiste no replay. Mostra o lance de novo, pergunta se houve toque de mão, questiona a origem da jogada. E, claro, incomoda. Mas sem replay, o campeonato vira teatro. E teatro, embora entretenha, não confere legitimidade ao resultado.

A ironia final é que todos afirmam jogar pela democracia. E talvez joguem mesmo. A questão é que democracia não é campeonato amistoso entre amigos. É torneio oficial, com regras rígidas, fiscalização constante e público atento. Quando as linhas do campo começam a se mover conforme a jogada, o torcedor desconfia.

Se o STF é um clube de futebol, que seja um clube que respeite impedimento, aplique cartão com critério, mantenha o árbitro fora da área de ataque e aceite o replay quando o lance é duvidoso. Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas o troféu da temporada, mas a credibilidade do próprio campeonato.

E, como todo torcedor experiente sabe, o jogo pode até ser duro. O que não pode é parecer combinado.

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