O salão dos intocáveis

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Era uma vez uma República que gostava de repetir, em discursos solenes, que ninguém estava acima da lei. Essa frase ecoava nos salões de mármore, nos auditórios do Judiciário e nas campanhas institucionais transmitidas em rede nacional. Mas, longe das câmeras, a política seguia outro roteiro, mais silencioso e muito mais revelador sobre como o poder realmente funcionava. No topo da pirâmide institucional, juízes vestiam togas que simbolizavam imparcialidade. Suas decisões moldavam destinos, derrubavam governos, salvavam ou condenavam projetos inteiros de poder. Ao redor deles, orbitava um ecossistema discreto e eficiente. Em bairros nobres das grandes capitais, escritórios de advocacia prosperavam, muitos comandados por esposas e parentes próximos desses mesmos magistrados. Oficialmente, nada de errado: profissionais qualificadas, contratos privados, mercado livre. A Procuradoria-Geral da República, guardiã da lei, carimbava tudo como “dentro da normalidade institucional”. A história s...

A maldição do poder: quando os deuses riem do supremo


Diz-se que, quando os deuses querem punir alguém, primeiro o presenteiam com poder. Depois, ficam observando — divertidos — enquanto esse alguém, embriagado pela própria grandeza, caminha em direção ao abismo. Essa máxima, muitas vezes atribuída a Eurípedes, parece não ser apenas uma alegoria antiga, mas um roteiro que se repete em diferentes épocas e palácios. E nos bastidores da política brasileira, onde a toga do juiz pesa tanto quanto a caneta do presidente, a velha tragédia grega parece ter encontrado novo palco.

Durante muito tempo, o Supremo Tribunal Federal foi percebido como o bastião final da ordem institucional. Guardiões da Constituição, os ministros ocupam um espaço elevado na hierarquia da República — e, muitas vezes, na percepção pública, quase mitológico. Mas eis que, nos últimos meses, o noticiário começou a borrar esse verniz. Uma reportagem investigativa trouxe à tona o nome do Banco Master, até então mais conhecido no mundo dos negócios e dos bastidores de Brasília, em um enredo que conecta poder financeiro, influências ocultas e decisões sensíveis do mais alto tribunal do país.

Segundo as denúncias, um lobista envolvido com o banco teria transitado com desenvoltura entre ministros do STF, oferecendo facilidades, promovendo encontros e influenciando o circuito decisório de uma forma que incomodou até os mais calejados observadores da política. As suspeitas recaem, ainda que indiretamente, sobre ministros que participaram de reuniões e viagens patrocinadas por figuras próximas ao banco. A narrativa, como sempre nesses casos, é envolta em versões conflitantes, negações formais e muita cautela institucional. Mas o dano simbólico já está feito: a imagem do STF como ente imune às tentações do mundo real começa a rachar.

Se olharmos esse episódio sob a lente da filosofia política, encontramos em Michel Foucault uma explicação inquietante. Para ele, o poder não é apenas algo que se exerce de cima para baixo — ele circula, se infiltra, molda comportamentos e silencia resistências. Num ambiente onde o Judiciário passou a assumir protagonismo político, ultrapassando muitas vezes os limites tradicionais de sua função, é natural que os mecanismos de sedução e pressão que antes estavam restritos ao Executivo ou Legislativo passem a atuar ali também.

Max Weber, por sua vez, falava da tensão entre a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade”. Quando um ministro de corte constitucional acredita ser portador de uma missão redentora — seja contra a corrupção, seja contra o autoritarismo — ele pode começar a ver sua função não como técnica, mas como salvífica. A toga vira armadura, e a crítica, crime. Nesse ponto, a política institucional se mistura com a vaidade pessoal, e o risco de “loucura pelo poder” deixa de ser retórico para se tornar diagnóstico.

O caso do Banco Master não envolve, até o momento, ilegalidades comprovadas. Mas o simples fato de ministros estarem nos círculos de influência de empresários e operadores políticos já acende sinais de alerta. Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo, observou que a banalização de certos comportamentos de poder é o que abre caminho para rupturas mais profundas. Não é o escândalo que destrói a República — é o hábito.

E há um detalhe importante que costuma escapar aos olhos menos atentos: a solidão do poder. Nietzsche dizia que o poder absoluto tende a isolar, e no isolamento, o homem poderoso perde a capacidade de escutar, de perceber o mundo como ele é, e não como gostaria que fosse. Ministros do STF, envolvidos há anos em embates políticos intensos, se tornam alvos de adoração de um lado e de ódio do outro. Com o tempo, qualquer crítica passa a ser percebida como ameaça. E nesse clima, a tentação de se cercar de aliados e bajuladores, de proteger o próprio nome acima da instituição, cresce perigosamente.

Talvez a tragédia maior do poder esteja justamente aí: ele transforma os que o tocam por tempo demais. Transforma servidores em senhores. E quando isso acontece, nem sempre é necessário que os deuses entrem em cena para castigar — o próprio sistema, como um organismo autodefensivo, começa a rejeitar os que ultrapassam seus limites.

No caso dos ministros envolvidos nesse novo episódio, o julgamento talvez não venha pelas mãos de seus pares, mas pelo desgaste progressivo da confiança pública. O STF, como instituição, já enfrentou ataques duros — muitos injustos, outros merecidos —, mas agora parece enfrentar um desafio ainda mais perigoso: o risco da irrelevância moral. E isso, como ensina a história, é o primeiro passo para a derrocada do poder que se acreditava inquestionável.

Comentários

  1. 👏🏼👏🏼👏🏼 Verdade. Quer saber quem é uma pessoa? Dê poder a ele.

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  2. Assim esta nossa Corte. O poder, quando deixa de servir à instituição e passa a alimentar a vaidade, não precisa de condenação formal para cair — basta o lento e irreversível esvaziamento da confiança pública. Por isso eu creio que está perto a queda destes “usurpadores”, que estão acabando com o nosso país. Assim eu creio 🙏🏼

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