Por que sempre elegemos quem nos alimenta, mesmo quando ele nos leva ao abate

Imagem
A frase “se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de lavagem seria sempre eleito, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado” funciona como uma metáfora crua, porém eficaz, para compreender dinâmicas recorrentes da política. Ela expõe uma lógica central do poder: a capacidade de garantir a sobrevivência imediata costuma falar mais alto do que a memória da violência estrutural. Quem controla os meios básicos de subsistência frequentemente conquista também a lealdade, mesmo quando é responsável pelo sofrimento que ameaça esse mesmo grupo. Na ciência política, essa dinâmica é amplamente discutida a partir da ideia de dependência. Max Weber, ao analisar as formas de dominação, explicava que o poder se sustenta não apenas pela força, mas pela crença na legitimidade daquele que manda. O “homem do balde” não precisa esconder os abates; basta que seja visto como indispensável. A violência se torna um dado colateral, quase naturalizado, enquanto o gesto cotidiano...

Na política, não há meio-termo: afagar ou destruir, segundo Maquiavel



Na política, os sentimentos não são apenas secundários – muitas vezes, são irrelevantes. A frase “os homens devem ser afagados ou destruídos” é uma das mais brutais e reveladoras de Nicolau Maquiavel, pensador que melhor entendeu a lógica nua do poder. Ela aparece em O Príncipe, obra de 1513, que continua a ser leitura obrigatória para quem deseja compreender a engrenagem crua e eficaz do domínio político. Para Maquiavel, entre conquistar e manter o poder, há uma regra clara: ou você neutraliza o adversário com favores que o tornem dependente, ou o elimina completamente como ameaça. O meio-termo é perigoso, pois deixa espaço para a vingança.

Essa visão pode parecer cínica, mas é essencialmente pragmática. Maquiavel parte da ideia de que o ser humano é movido por interesses, e não por virtudes. Governantes que apostam na benevolência pura ou na conciliação contínua, sem garantir sua própria segurança no processo, tendem a ser derrubados por aqueles que não têm os mesmos escrúpulos. A história está cheia de exemplos disso – desde Júlio César, traído por aqueles que antes o bajulavam, até Salvador Allende, que confiou demais em instituições que não estavam dispostas a protegê-lo.

Afagar, no contexto maquiavélico, significa integrar o adversário ao seu sistema de poder. É comprar a lealdade com cargos, concessões ou alianças estratégicas. Já destruir não significa apenas o uso da força física ou da eliminação literal do inimigo, mas sim sua deslegitimação completa: remover sua influência, sua base de apoio e sua capacidade de reagir. Para Maquiavel, se o inimigo tem chance de se recuperar, ele se tornará mais perigoso ainda.

Essa lógica reverbera nas práticas políticas modernas. Muitos líderes, especialmente em regimes autoritários, internalizam essa estratégia. Um exemplo claro é o de Vladimir Putin, que alterna entre afagar oligarcas com favores e contratos estatais, e destruir adversários por meio da prisão, do exílio ou da morte civil e política. No Brasil, práticas semelhantes já foram vistas em diferentes governos, com adversários sendo cooptados com ministérios ou, quando não era possível, transformados em alvo de investigações, denúncias ou ostracismo político.

A abordagem maquiavélica também encontra eco em filósofos como Thomas Hobbes, que via o Estado como o único antídoto contra a guerra de todos contra todos. Para Hobbes, a autoridade deve ser incontestável, o que implica eliminar qualquer fonte de resistência. Já Max Weber, embora mais institucionalista, reconhecia que o poder se sustenta, em última instância, pela capacidade de impor a própria vontade, mesmo contra a resistência dos outros.

A política, portanto, não é lugar para ingenuidade. A frase de Maquiavel pode soar chocante, mas revela uma verdade estrutural sobre o jogo do poder: quem deseja governar com estabilidade precisa decidir, diante de cada adversário, se ele deve ser absorvido ou eliminado. Tentar equilibrar os dois pode ser a escolha mais arriscada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A maldição do poder: quando os deuses riem do supremo

O peso político da mentira: quando a dívida com a verdade se transforma em capital de poder