O diabo está de férias: quando o poder humano supera o mal mitológico

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A provocação “o diabo está de férias, pois o homem está fazendo o trabalho dele” é mais do que uma frase de efeito: é um diagnóstico mordaz sobre o nosso tempo. Essa visão sugere que, em pleno século XXI, não é mais necessário recorrer a entidades sobrenaturais para explicar o mal no mundo. A própria ação humana, guiada por interesses políticos, econômicos e ideológicos, tem se mostrado suficientemente eficiente na produção de barbárie, manipulação e dominação. Essa ideia encontra eco no pensamento de Hannah Arendt, especialmente quando ela descreve a "banalidade do mal". Para Arendt, o mal não se manifesta apenas por meio de figuras monstruosas ou satânicas, mas pode ser perpetuado por indivíduos comuns, burocratas obedientes, que seguem ordens sem refletir sobre suas consequências éticas. Nesse sentido, o mal deixa de ser uma exceção para se tornar um mecanismo cotidiano, sistemático — e, talvez por isso, ainda mais perigoso. Na arena política contemporânea, os exemplos são...

O poder não muda valores: ele apenas revela quem sempre fomos


A frase de que o poder não muda valores, mas destrava comportamentos, provoca porque desmonta uma ideia confortável: a de que certas pessoas “se corrompem” apenas quando chegam ao topo. Na lógica política, o poder funciona menos como um agente transformador da moral e mais como um amplificador das disposições internas que já estavam ali, contidas por limites institucionais, sociais ou materiais. Quando esses limites caem, o comportamento emerge com mais nitidez.

Nicolau Maquiavel, frequentemente acusado de cinismo, foi um dos primeiros a tratar o poder dessa forma realista. Em O Príncipe, ele não parte do pressuposto de que governantes se tornam cruéis ou virtuosos por causa do cargo, mas de que governam conforme suas inclinações e conforme as circunstâncias permitem. O poder, para Maquiavel, não cria a ambição ou a astúcia; ele oferece o terreno fértil para que essas características se expressem sem freios. Um líder inclinado à prudência tende a usá-la quando tem poder; um inclinado à violência encontra meios de exercê-la.

Essa ideia reaparece, séculos depois, na sociologia de Max Weber. Ao analisar os tipos de dominação, Weber mostra que o exercício do poder depende menos de uma súbita mudança moral e mais da relação entre autoridade e legitimidade. Quando alguém passa a ocupar uma posição de comando, seus valores pessoais não são substituídos por outros; eles passam a ter consequências práticas. O que antes era opinião vira decisão, o que era desejo vira política pública. O poder destrava a capacidade de transformar valores em ação.

Hannah Arendt ajuda a aprofundar esse ponto ao diferenciar poder de violência. Para ela, o poder nasce da ação coletiva e do reconhecimento, enquanto a violência surge quando o poder começa a falhar. Líderes que recorrem sistematicamente à coerção não se tornam autoritários porque ganharam poder; eles revelam uma visão de mundo que já desprezava o diálogo e a pluralidade. O cargo apenas removeu os obstáculos que impediam essa visão de se impor.

Na política contemporânea, exemplos abundam. Governantes que sempre demonstraram desprezo por regras institucionais tendem a atacar tribunais e parlamentos quando chegam ao Executivo. Outros, com histórico de negociação e compromisso, usam o mesmo poder para fortalecer pactos e ampliar consensos. A diferença não está no poder em si, mas no repertório moral e político que cada um carrega antes de alcançá-lo.

O sociólogo Pierre Bourdieu contribui ao mostrar que o comportamento no poder também é moldado pelo habitus, esse conjunto de disposições internalizadas ao longo da vida. O poder não apaga o habitus; ele o potencializa. Quem foi socializado em ambientes autoritários tende a reproduzir práticas autoritárias quando ocupa posições de mando. Quem aprendeu a jogar segundo regras democráticas tende a respeitá-las, mesmo quando poderia burlá-las.

Por isso, a frase “o poder corrompe” é, no mínimo, incompleta. Mais preciso seria dizer que o poder testa, expõe e amplifica. Ele retira o disfarce que a falta de meios impunha. Na política, essa constatação é crucial: avaliar líderes apenas pelo que fazem depois de eleitos é ignorar tudo o que já sinalizavam antes de chegar lá. O poder não muda valores; ele apenas cria as condições para que comportamentos latentes se tornem visíveis e, muitas vezes, irreversíveis.

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