O poder não muda valores: ele apenas revela quem sempre fomos


A frase de que o poder não muda valores, mas destrava comportamentos, provoca porque desmonta uma ideia confortável: a de que certas pessoas “se corrompem” apenas quando chegam ao topo. Na lógica política, o poder funciona menos como um agente transformador da moral e mais como um amplificador das disposições internas que já estavam ali, contidas por limites institucionais, sociais ou materiais. Quando esses limites caem, o comportamento emerge com mais nitidez.

Nicolau Maquiavel, frequentemente acusado de cinismo, foi um dos primeiros a tratar o poder dessa forma realista. Em O Príncipe, ele não parte do pressuposto de que governantes se tornam cruéis ou virtuosos por causa do cargo, mas de que governam conforme suas inclinações e conforme as circunstâncias permitem. O poder, para Maquiavel, não cria a ambição ou a astúcia; ele oferece o terreno fértil para que essas características se expressem sem freios. Um líder inclinado à prudência tende a usá-la quando tem poder; um inclinado à violência encontra meios de exercê-la.

Essa ideia reaparece, séculos depois, na sociologia de Max Weber. Ao analisar os tipos de dominação, Weber mostra que o exercício do poder depende menos de uma súbita mudança moral e mais da relação entre autoridade e legitimidade. Quando alguém passa a ocupar uma posição de comando, seus valores pessoais não são substituídos por outros; eles passam a ter consequências práticas. O que antes era opinião vira decisão, o que era desejo vira política pública. O poder destrava a capacidade de transformar valores em ação.

Hannah Arendt ajuda a aprofundar esse ponto ao diferenciar poder de violência. Para ela, o poder nasce da ação coletiva e do reconhecimento, enquanto a violência surge quando o poder começa a falhar. Líderes que recorrem sistematicamente à coerção não se tornam autoritários porque ganharam poder; eles revelam uma visão de mundo que já desprezava o diálogo e a pluralidade. O cargo apenas removeu os obstáculos que impediam essa visão de se impor.

Na política contemporânea, exemplos abundam. Governantes que sempre demonstraram desprezo por regras institucionais tendem a atacar tribunais e parlamentos quando chegam ao Executivo. Outros, com histórico de negociação e compromisso, usam o mesmo poder para fortalecer pactos e ampliar consensos. A diferença não está no poder em si, mas no repertório moral e político que cada um carrega antes de alcançá-lo.

O sociólogo Pierre Bourdieu contribui ao mostrar que o comportamento no poder também é moldado pelo habitus, esse conjunto de disposições internalizadas ao longo da vida. O poder não apaga o habitus; ele o potencializa. Quem foi socializado em ambientes autoritários tende a reproduzir práticas autoritárias quando ocupa posições de mando. Quem aprendeu a jogar segundo regras democráticas tende a respeitá-las, mesmo quando poderia burlá-las.

Por isso, a frase “o poder corrompe” é, no mínimo, incompleta. Mais preciso seria dizer que o poder testa, expõe e amplifica. Ele retira o disfarce que a falta de meios impunha. Na política, essa constatação é crucial: avaliar líderes apenas pelo que fazem depois de eleitos é ignorar tudo o que já sinalizavam antes de chegar lá. O poder não muda valores; ele apenas cria as condições para que comportamentos latentes se tornem visíveis e, muitas vezes, irreversíveis.

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