Por que sempre elegemos quem nos alimenta, mesmo quando ele nos leva ao abate

Imagem
A frase “se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de lavagem seria sempre eleito, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado” funciona como uma metáfora crua, porém eficaz, para compreender dinâmicas recorrentes da política. Ela expõe uma lógica central do poder: a capacidade de garantir a sobrevivência imediata costuma falar mais alto do que a memória da violência estrutural. Quem controla os meios básicos de subsistência frequentemente conquista também a lealdade, mesmo quando é responsável pelo sofrimento que ameaça esse mesmo grupo. Na ciência política, essa dinâmica é amplamente discutida a partir da ideia de dependência. Max Weber, ao analisar as formas de dominação, explicava que o poder se sustenta não apenas pela força, mas pela crença na legitimidade daquele que manda. O “homem do balde” não precisa esconder os abates; basta que seja visto como indispensável. A violência se torna um dado colateral, quase naturalizado, enquanto o gesto cotidiano...

A Rebeldia como caminho para a liberdade: o grito de Étienne de La Boétie


A frase “Sede, portanto, resolutos a não mais servir e sereis livres” não é apenas uma exortação retórica: ela condensa uma das ideias mais provocadoras da teoria política clássica. Extraída do Discurso da Servidão Voluntária, obra escrita por Étienne de La Boétie no século XVI, essa afirmação carrega uma denúncia contundente contra o poder arbitrário e uma proposta radical de resistência pacífica: o rompimento voluntário com a obediência.

La Boétie, amigo íntimo de Montaigne, escreveu seu tratado ainda jovem, e com ele lançou uma questão perturbadora: por que milhões obedecem a um só? Para o autor, o poder tirânico não se sustenta unicamente pela força — ele se apoia, sobretudo, no consentimento daqueles que se submetem. A tirania, portanto, só existe porque as pessoas permitem que ela exista. Nesse sentido, a liberdade não seria algo a ser conquistado com armas ou revoluções violentas, mas com uma simples decisão coletiva de recusar a obediência.

O ponto central da crítica de La Boétie é o que ele chama de “servidão voluntária”: uma forma de dominação sustentada não apenas por coerção, mas por um hábito cultural, por uma aceitação tácita, por uma espécie de conformismo psicológico e social. O tirano, sozinho, é fraco. Sua força reside na teia de colaboradores, bajuladores e intermediários que o sustentam — e que, por sua vez, se beneficiam da dominação. Há aqui um embrião do que mais tarde Antonio Gramsci chamaria de hegemonia: a dominação que se impõe não pela força direta, mas pela aceitação ideológica da ordem estabelecida.

Essa crítica profunda toca um ponto sensível da política em qualquer época: o poder, para se manter, não precisa apenas de armas ou prisões; ele precisa de legitimidade. E essa legitimidade, muitas vezes, é construída com símbolos, tradições, ideologias e, sobretudo, com o medo do caos que supostamente viria na ausência da autoridade. Thomas Hobbes, por exemplo, escreveu em “Leviatã” que os seres humanos preferem submeter-se ao soberano do que viver no estado de natureza, onde predomina a guerra de todos contra todos. Mas La Boétie questiona essa lógica: e se o verdadeiro caos estiver exatamente na aceitação da tirania?

Ao contrário de Hobbes, que vê no poder centralizado uma necessidade civilizatória, La Boétie aposta na capacidade racional e moral dos indivíduos de se autogovernarem, desde que recusem a servidão como modo de vida. O que ele propõe é uma forma de desobediência civil avant la lettre, que mais tarde inspiraria pensadores como Henry David Thoreau, Mahatma Gandhi e até Martin Luther King Jr. A ideia é simples, mas poderosa: se a maioria decide não mais sustentar o sistema opressor, ele desmorona.

Hoje, em tempos de regimes autoritários disfarçados de democracias, de líderes populistas que se alimentam da passividade de seus eleitores, a mensagem de La Boétie continua atual. Muitos sistemas de poder sobrevivem porque contam com a apatia, o medo ou a conveniência das massas. Quando essas massas despertam e se tornam resolutas em não mais servir — seja por meio do voto, da mobilização ou da recusa ativa —, a liberdade deixa de ser uma abstração e passa a ser uma possibilidade concreta.

A força da frase inicial, então, não está apenas em sua sonoridade rebelde, mas na sua simplicidade transformadora: a liberdade não é dada, é assumida. Para tanto, é preciso uma resolução interna, uma decisão consciente de romper com a estrutura que sustenta o poder injusto. La Boétie, com seu estilo direto e provocador, não convida à violência, mas à reflexão e à ação — uma ação silenciosa, porém revolucionária, capaz de desmantelar os alicerces da servidão com o simples ato de recusar-se a colaborar com ela.

Comentários

  1. Étienne pregava a não subserviência, mas serviu ao Parlamento de Bordeaux, nem ele resistiu aos encantos de servir o Poder.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A maldição do poder: quando os deuses riem do supremo

O peso político da mentira: quando a dívida com a verdade se transforma em capital de poder

Na política, não há meio-termo: afagar ou destruir, segundo Maquiavel