Promessas milagrosas e discursos demagógicos: a arquitetura do engano político
La Boétie, amigo íntimo de Montaigne, escreveu seu tratado ainda jovem, e com ele lançou uma questão perturbadora: por que milhões obedecem a um só? Para o autor, o poder tirânico não se sustenta unicamente pela força — ele se apoia, sobretudo, no consentimento daqueles que se submetem. A tirania, portanto, só existe porque as pessoas permitem que ela exista. Nesse sentido, a liberdade não seria algo a ser conquistado com armas ou revoluções violentas, mas com uma simples decisão coletiva de recusar a obediência.
O ponto central da crítica de La Boétie é o que ele chama de “servidão voluntária”: uma forma de dominação sustentada não apenas por coerção, mas por um hábito cultural, por uma aceitação tácita, por uma espécie de conformismo psicológico e social. O tirano, sozinho, é fraco. Sua força reside na teia de colaboradores, bajuladores e intermediários que o sustentam — e que, por sua vez, se beneficiam da dominação. Há aqui um embrião do que mais tarde Antonio Gramsci chamaria de hegemonia: a dominação que se impõe não pela força direta, mas pela aceitação ideológica da ordem estabelecida.
Essa crítica profunda toca um ponto sensível da política em qualquer época: o poder, para se manter, não precisa apenas de armas ou prisões; ele precisa de legitimidade. E essa legitimidade, muitas vezes, é construída com símbolos, tradições, ideologias e, sobretudo, com o medo do caos que supostamente viria na ausência da autoridade. Thomas Hobbes, por exemplo, escreveu em “Leviatã” que os seres humanos preferem submeter-se ao soberano do que viver no estado de natureza, onde predomina a guerra de todos contra todos. Mas La Boétie questiona essa lógica: e se o verdadeiro caos estiver exatamente na aceitação da tirania?
Ao contrário de Hobbes, que vê no poder centralizado uma necessidade civilizatória, La Boétie aposta na capacidade racional e moral dos indivíduos de se autogovernarem, desde que recusem a servidão como modo de vida. O que ele propõe é uma forma de desobediência civil avant la lettre, que mais tarde inspiraria pensadores como Henry David Thoreau, Mahatma Gandhi e até Martin Luther King Jr. A ideia é simples, mas poderosa: se a maioria decide não mais sustentar o sistema opressor, ele desmorona.
Hoje, em tempos de regimes autoritários disfarçados de democracias, de líderes populistas que se alimentam da passividade de seus eleitores, a mensagem de La Boétie continua atual. Muitos sistemas de poder sobrevivem porque contam com a apatia, o medo ou a conveniência das massas. Quando essas massas despertam e se tornam resolutas em não mais servir — seja por meio do voto, da mobilização ou da recusa ativa —, a liberdade deixa de ser uma abstração e passa a ser uma possibilidade concreta.
A força da frase inicial, então, não está apenas em sua sonoridade rebelde, mas na sua simplicidade transformadora: a liberdade não é dada, é assumida. Para tanto, é preciso uma resolução interna, uma decisão consciente de romper com a estrutura que sustenta o poder injusto. La Boétie, com seu estilo direto e provocador, não convida à violência, mas à reflexão e à ação — uma ação silenciosa, porém revolucionária, capaz de desmantelar os alicerces da servidão com o simples ato de recusar-se a colaborar com ela.
Étienne pregava a não subserviência, mas serviu ao Parlamento de Bordeaux, nem ele resistiu aos encantos de servir o Poder.
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