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Mostrando postagens de dezembro, 2025

O salão dos intocáveis

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Era uma vez uma República que gostava de repetir, em discursos solenes, que ninguém estava acima da lei. Essa frase ecoava nos salões de mármore, nos auditórios do Judiciário e nas campanhas institucionais transmitidas em rede nacional. Mas, longe das câmeras, a política seguia outro roteiro, mais silencioso e muito mais revelador sobre como o poder realmente funcionava. No topo da pirâmide institucional, juízes vestiam togas que simbolizavam imparcialidade. Suas decisões moldavam destinos, derrubavam governos, salvavam ou condenavam projetos inteiros de poder. Ao redor deles, orbitava um ecossistema discreto e eficiente. Em bairros nobres das grandes capitais, escritórios de advocacia prosperavam, muitos comandados por esposas e parentes próximos desses mesmos magistrados. Oficialmente, nada de errado: profissionais qualificadas, contratos privados, mercado livre. A Procuradoria-Geral da República, guardiã da lei, carimbava tudo como “dentro da normalidade institucional”. A história s...

O poder invisível da incerteza: como os líderes moldam o jogo político ao dominar o imprevisível

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Na política, poucas ferramentas são tão poderosas quanto a capacidade de controlar a incerteza. Em contextos onde fatos, interesses e alianças mudam como placas tectônicas, quem domina o fluxo do imprevisível conquista não apenas autoridade, mas também vantagem estratégica. A ideia de que incerteza é poder não é nova. Autores como Niccolò Maquiavel já reconheciam que governar envolve mais do que força ou legitimidade: envolve a capacidade de prever, manipular e moldar percepções. O governante prudente, dizia ele, é aquele que entende a fortuna — o elemento do imponderável — e aprende a dobrá-la a seu favor através da virtù. A política contemporânea aprofunda esse entendimento. A sociologia de Max Weber, por exemplo, ajuda a perceber como diferentes formas de dominação dependem de controlar o ambiente simbólico. Em governos burocráticos, controlar a incerteza significa deter informações; em sistemas carismáticos, significa controlar expectativas; e em democracias de massa, significa adm...

Na política, não há meio-termo: afagar ou destruir, segundo Maquiavel

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Na política, os sentimentos não são apenas secundários – muitas vezes, são irrelevantes. A frase “os homens devem ser afagados ou destruídos” é uma das mais brutais e reveladoras de Nicolau Maquiavel, pensador que melhor entendeu a lógica nua do poder. Ela aparece em O Príncipe, obra de 1513, que continua a ser leitura obrigatória para quem deseja compreender a engrenagem crua e eficaz do domínio político. Para Maquiavel, entre conquistar e manter o poder, há uma regra clara: ou você neutraliza o adversário com favores que o tornem dependente, ou o elimina completamente como ameaça. O meio-termo é perigoso, pois deixa espaço para a vingança. Essa visão pode parecer cínica, mas é essencialmente pragmática. Maquiavel parte da ideia de que o ser humano é movido por interesses, e não por virtudes. Governantes que apostam na benevolência pura ou na conciliação contínua, sem garantir sua própria segurança no processo, tendem a ser derrubados por aqueles que não têm os mesmos escrúpulos. A hi...

Nada é por acaso: o cálculo por trás dos acontecimentos políticos

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A famosa frase atribuída a Franklin D. Roosevelt — "Em política, nada acontece por acidente. Se acontece, pode apostar que foi planejado para acontecer" — revela uma faceta essencial do jogo político: a ação deliberada. Mais do que uma observação cínica, trata-se de um princípio-chave para entender como o poder é construído, mantido e, muitas vezes, manipulado. Em um campo onde cada movimento pode desencadear ondas de consequências, a espontaneidade genuína é quase sempre descartada. Na arena política, os bastidores são tão ou mais importantes que os palcos. O que parece ser um escândalo repentino, uma aliança improvável ou uma decisão polêmica de última hora geralmente é o resultado de longas articulações, negociações e cálculos estratégicos. Carl Schmitt, teórico político alemão, já advertia que a política é, antes de tudo, uma forma de distinguir o amigo do inimigo — e, nessa lógica, planejar é sobreviver. O improviso, se existe, é cuidadosamente roteirizado. Essa lógica s...

O Poder nu e cru: quando a política reduz pessoas a obstáculos

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A citação apresentada — atribuída ao romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas — sintetiza uma percepção sombria, mas recorrente, sobre a lógica do poder: a ideia de que, na arena política, indivíduos, afetos e princípios muitas vezes são substituídos por interesses, cálculos e estratégias frias. A frase provoca porque escancara algo que filósofos como Maquiavel, Hobbes e até sociólogos como Max Weber trataram sob diferentes perspectivas: a política, quando reduzida ao seu núcleo mais duro, tende a ultrapassar a moralidade cotidiana. A frase “em política, não existem homens, mas ideias; não existem sentimentos, mas interesses” traduz bem a racionalidade instrumental descrita por Weber, para quem a ação política está frequentemente subordinada a fins específicos. Esse deslocamento do humano para o estratégico é também observado em Maquiavel, que enfatizava que o governante deveria agir não conforme o que é idealmente bom, mas conforme o que garante a estabilidade do poder. Par...