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Mostrando postagens de janeiro, 2026

O salão dos intocáveis

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Era uma vez uma República que gostava de repetir, em discursos solenes, que ninguém estava acima da lei. Essa frase ecoava nos salões de mármore, nos auditórios do Judiciário e nas campanhas institucionais transmitidas em rede nacional. Mas, longe das câmeras, a política seguia outro roteiro, mais silencioso e muito mais revelador sobre como o poder realmente funcionava. No topo da pirâmide institucional, juízes vestiam togas que simbolizavam imparcialidade. Suas decisões moldavam destinos, derrubavam governos, salvavam ou condenavam projetos inteiros de poder. Ao redor deles, orbitava um ecossistema discreto e eficiente. Em bairros nobres das grandes capitais, escritórios de advocacia prosperavam, muitos comandados por esposas e parentes próximos desses mesmos magistrados. Oficialmente, nada de errado: profissionais qualificadas, contratos privados, mercado livre. A Procuradoria-Geral da República, guardiã da lei, carimbava tudo como “dentro da normalidade institucional”. A história s...

O salão dos intocáveis

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Era uma vez uma República que gostava de repetir, em discursos solenes, que ninguém estava acima da lei. Essa frase ecoava nos salões de mármore, nos auditórios do Judiciário e nas campanhas institucionais transmitidas em rede nacional. Mas, longe das câmeras, a política seguia outro roteiro, mais silencioso e muito mais revelador sobre como o poder realmente funcionava. No topo da pirâmide institucional, juízes vestiam togas que simbolizavam imparcialidade. Suas decisões moldavam destinos, derrubavam governos, salvavam ou condenavam projetos inteiros de poder. Ao redor deles, orbitava um ecossistema discreto e eficiente. Em bairros nobres das grandes capitais, escritórios de advocacia prosperavam, muitos comandados por esposas e parentes próximos desses mesmos magistrados. Oficialmente, nada de errado: profissionais qualificadas, contratos privados, mercado livre. A Procuradoria-Geral da República, guardiã da lei, carimbava tudo como “dentro da normalidade institucional”. A história s...

A teia invisível do poder no Brasil

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Quando Balzac comparou as leis a teias de aranha, talvez não imaginasse o quanto sua metáfora se encaixaria na história política brasileira. Aqui, a teia sempre esteve armada: fina, quase invisível, estendida nos corredores do poder desde o período colonial. Ao longo do tempo, muitas “moscas pequenas” ficaram presas nela, enquanto as grandes aprenderam a atravessá-la sem sequer sentir o toque pegajoso dos fios. Imagine a cena: um país que nasce sob a lógica do privilégio, onde a lei chega antes para proteger a propriedade do que para garantir justiça. No Brasil Império, o escravizado que fugia era caçado com o respaldo legal do Estado, enquanto grandes proprietários moldavam normas conforme seus interesses. A República veio com promessas de igualdade, mas a teia continuou no mesmo lugar, apenas mais sofisticada. O nome mudou, o discurso se modernizou, mas a relação entre lei e poder permaneceu desequilibrada. Décadas depois, já em plena democracia, a história se repete com novos person...

A REPÚBLICA NÃO PODE TER SOBRENOME

A decisão do ministro Flávio Dino de proibir o repasse e a execução de emendas parlamentares para entidades do terceiro setor vinculadas a familiares de parlamentares ou assessores é um sopro raro de sanidade institucional no Brasil. Ao apontar que essa prática se aproxima de uma “apropriação privada do Orçamento Público”, Dino não está apenas corrigindo um detalhe técnico: está reafirmando um princípio que deveria ser óbvio em qualquer Estado minimamente civilizado — dinheiro público não pode virar extensão de família, influência e compadrio. O problema, porém, começa quando o país celebra a moralidade em um Poder e tolera a mesma deformação em outro. A indignação pública costuma ser rápida e legítima quando o assunto é Legislativo: emendas, ONGs, associações, repasses, convênios. A sociedade entende com clareza o que está em jogo: alguém com mandato direcionando recursos do povo para estruturas privadas ligadas ao seu próprio círculo. Isso fere o senso comum de justiça porque parece ...

O peso político da mentira: quando a dívida com a verdade se transforma em capital de poder

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A frase “Toda mentira contada é uma dívida com a verdade”, encapsula uma tensão fundamental da política: a mentira como instrumento de curto prazo, cujos juros, no entanto, sempre vencem. No jogo do poder, mentir é uma ferramenta recorrente – muitas vezes indispensável. Governantes, partidos e líderes constroem narrativas, omitem dados, distorcem contextos ou simplesmente falseiam os fatos para manter controle, mobilizar apoio ou desviar a atenção. A política moderna, especialmente em sociedades de massa e sob o reinado da comunicação em tempo real, tornou-se um terreno fértil para esse tipo de manipulação simbólica. Mas qual o custo dessa prática? Maquiavel, em "O Príncipe", já admitia a eficácia da mentira como recurso do governante, desde que o objetivo maior – a estabilidade do Estado – fosse preservado. Para ele, o governante precisava saber “entrar no mal quando necessário”, ainda que mantendo as aparências da virtude. A astúcia da raposa era tão necessária quanto a for...

A maldição do poder: quando os deuses riem do supremo

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Diz-se que, quando os deuses querem punir alguém, primeiro o presenteiam com poder. Depois, ficam observando — divertidos — enquanto esse alguém, embriagado pela própria grandeza, caminha em direção ao abismo. Essa máxima, muitas vezes atribuída a Eurípedes, parece não ser apenas uma alegoria antiga, mas um roteiro que se repete em diferentes épocas e palácios. E nos bastidores da política brasileira, onde a toga do juiz pesa tanto quanto a caneta do presidente, a velha tragédia grega parece ter encontrado novo palco. Durante muito tempo, o Supremo Tribunal Federal foi percebido como o bastião final da ordem institucional. Guardiões da Constituição, os ministros ocupam um espaço elevado na hierarquia da República — e, muitas vezes, na percepção pública, quase mitológico. Mas eis que, nos últimos meses, o noticiário começou a borrar esse verniz. Uma reportagem investigativa trouxe à tona o nome do Banco Master, até então mais conhecido no mundo dos negócios e dos bastidores de Brasília,...