Por que sempre elegemos quem nos alimenta, mesmo quando ele nos leva ao abate

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A frase “se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de lavagem seria sempre eleito, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado” funciona como uma metáfora crua, porém eficaz, para compreender dinâmicas recorrentes da política. Ela expõe uma lógica central do poder: a capacidade de garantir a sobrevivência imediata costuma falar mais alto do que a memória da violência estrutural. Quem controla os meios básicos de subsistência frequentemente conquista também a lealdade, mesmo quando é responsável pelo sofrimento que ameaça esse mesmo grupo. Na ciência política, essa dinâmica é amplamente discutida a partir da ideia de dependência. Max Weber, ao analisar as formas de dominação, explicava que o poder se sustenta não apenas pela força, mas pela crença na legitimidade daquele que manda. O “homem do balde” não precisa esconder os abates; basta que seja visto como indispensável. A violência se torna um dado colateral, quase naturalizado, enquanto o gesto cotidiano...

Globo retoma liderança em verbas de publicidade do governo sob a gestão de Lula


Em 2023, o grupo Globo reassumiu a liderança na distribuição de verbas de publicidade do governo federal sob a gestão de Lula (PT). Nos primeiros seis meses do terceiro mandato do petista, os veículos de mídia da Globo receberam pelo menos R$ 54,4 milhões em propagandas da Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República e de ministérios. Em contraste, a Record foi o destino de R$ 13 milhões, enquanto o SBT recebeu R$ 12 milhões.

Os dados foram extraídos do portal de planejamento de mídia do governo federal, que mostra valores pagos em ações de publicidade já realizadas pela Secom e outros órgãos do governo federal. No entanto, o site não apresenta pagamentos feitos em propagandas de bancos públicos e das estatais, como a Petrobras.

Durante a gestão Bolsonaro (2019-2022), a Globo e seus principais concorrentes receberam valores similares, com uma ligeira vantagem para a Record, TV ligada à Igreja Universal do Reino de Deus. No entanto, a situação mudou com a chegada de Lula ao poder.

A Record ainda perdeu espaço na publicidade em canais digitais sob Lula. O portal R7, que ganhou ao menos R$ 8,4 milhões da gestão passada, não tem pagamentos registrados até agora, enquanto o site Globo.com recebeu pelo menos R$ 394,5 mil.

A Secom, questionada sobre a divisão dos recursos de publicidade, afirmou que "os grupos mencionados" têm números diferentes de veículos e que o portal de despesas está "em constante atualização". A secretaria não respondeu qual critério utiliza para direcionar os recursos de TV.

A Globo tem sido, ao longo das décadas, a emissora de TV brasileira de maior audiência. Na última quinta-feira (20), por exemplo, ela marcou 13,8 pontos, em média, na Grande São Paulo, de acordo com informações do site Notícias da TV, do UOL. A Record alcançou 5,7 pontos, o SBT 3,0 pontos e a Band, 2,1 pontos. Cada ponto equivale a 70.953 domicílios na Grande São Paulo.

Praticamente toda a verba direcionada ao grupo Globo teve como destino as emissoras de TVs do grupo. Os dados da Secom e de ministérios ainda mostram mudança de critérios de publicidade em jornais. Esses órgãos voltaram a anunciar na Folha (R$ 352,9 mil), O Globo (R$ 398,9 mil) e O Estado de S. Paulo (R$ 206,8 mil), três veículos que não haviam sido incluídos em planos de mídia federais de 2020 a 2022.

Os órgãos federais também voltaram a comprar espaços publicitários de canais alinhados à gestão petista. O site Brasil 247 recebeu R$ 59,9 mil. O Diário do Centro do Mundo foi o destino de R$ 46,2 mil em anúncios, enquanto o site O Cafezinho ganhou ao menos R$ 4.900.

A Meta, empresa que controla Facebook, Instagram e WhatsApp, foi o quinto grupo que mais recebeu verbas publicitárias nas gestões Bolsonaro e Lula. O ranking de maiores beneficiados ainda inclui empresas que divulgam as peças publicitárias em metrôs, aeroportos e outdoors digitais, como a Eletromidia e a JCDecaux.

Sob Lula, o TikTok e a Kwai também surgem entre os dez principais destinos de anúncios publicitários federais. No entanto, a divulgação sobre as despesas com mídia do governo federal é precária. Como faltam dados sobre os valores pagos por estatais e bancos públicos, não há um balanço conclusivo sobre a distribuição de anúncios.

Os dados do governo mostram que as campanhas publicitárias realizadas pela gestão Bolsonaro totalizaram R$ 2,1 bilhões em anúncios durante quatro anos. Esse recorte considera principalmente ações do Ministério da Saúde e da Secom. As informações disponíveis sobre campanhas da gestão Lula somam cerca de R$ 120 milhões nesses seis meses.

Dos R$ 54,4 milhões direcionados ao grupo Globo em publicidade federal, cerca de R$ 9 milhões foram para anúncios veiculados durante o Jornal Nacional, o principal telejornal da emissora. A campanha de maior valor da gestão Lula, com R$ 32,7 milhões desembolsados, trata da promoção de entregas do governo nos 100 dias de gestão Lula.

A Saúde desembolsou ao menos R$ 37,1 milhões para estimular a vacinação contra a Covid-19 e gripe, em mais de uma ação publicitária. Como há assimetria na checagem da veiculação dos anúncios em cada meio (TVs, rádios, internet, jornais, outdoors etc), é possível que o domínio da Globo sobre a verba de publicidade diminua durante o ano.

No começo da gestão Bolsonaro, a Globo chegou a ficar em terceiro na lista de verbas publicitárias federais, atrás da Record e do SBT. A Folha mostrou, à época, que Bolsonaro havia alterado critérios de distribuição dos anúncios, reduzindo valores à emissora líder de audiência. O canal foi alvo de diversas críticas do ex-presidente, que chegou a ameaçar não renovar a sua concessão, mas recuou e assinou a renovação dias antes de deixar o governo.

Em 2020, o TCU (Tribunal de Contas da União) concluiu que faltavam critérios técnicos na distribuição das verbas a TVs abertas. Nos anos seguintes, a Globo voltou a liderar o ranking da publicidade federal, ainda que próxima da Record.

Em nota, a Secom disse que "confirmações entre grupos/veículos não ocorrerem de forma simultânea e articulada, os grupos mencionados possuem diferentes volumes de veículos em sua composição, dando uma visão distorcida sobre o investimento público em comunicação".




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