STF Futebol Clube: quando o árbitro também quer fazer o gol

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Se o ministro Flávio Dino resolveu batizar a Corte de STF Futebol Clube , nada mais justo do que assumir de vez a tabela do campeonato. Afinal, se é para jogar bola institucional, que pelo menos a gente saiba qual é o regulamento — ou, melhor ainda, qual regulamento está valendo hoje. No STF Futebol Clube, o estádio é monumental, o gramado é a Constituição e a torcida é composta por advogados, parlamentares, jornalistas, militantes digitais e comentaristas de sofá com diploma em arbitragem constitucional. O problema é que, às vezes, parece que o juiz também veste uniforme, escala o time e decide o placar antes do apito inicial. Comecemos pelo impedimento. No futebol tradicional, não vale fazer gol estando à frente da linha da defesa. Já no campeonato institucional, descobrimos uma nova modalidade: o impedimento interpretativo. Se um inquérito nasce para investigar ataques à democracia, mas, no segundo tempo, passa a investigar qualquer coisa que cruze o campo, estamos diante de uma ...

O fardo invisível: o poder como responsabilidade inescapável


Desde as origens das civilizações, o poder nunca foi apenas um direito ou um privilégio; ele é, sobretudo, uma responsabilidade. A célebre máxima — “com o poder vem a responsabilidade” — imortalizada na cultura popular e reverberada nas cúpulas do pensamento político, traduz uma verdade elementar das dinâmicas de liderança: o poder não existe no vácuo, tampouco se sustenta apenas pela força. Ele exige prestação de contas, implica obrigações morais, institucionais e estratégicas. Na política, na guerra ou na administração, todo aquele que ascende ao poder carrega consigo o peso invisível das expectativas coletivas, das consequências futuras e das responsabilidades intransferíveis.

Historicamente, os grandes líderes compreenderam que o poder é uma lâmina de dois gumes: pode engrandecer ou destruir. Alexandre, o Grande, ao conquistar vastos territórios, compreendeu que seu poder não era apenas o de impor a espada, mas também o de administrar povos, culturas e tradições diversas. O mesmo se aplica a Augusto, que ao transformar Roma de uma república instável em um império duradouro, soube que seu poder deveria ser sustentado por instituições, reformas e uma pax que garantisse a coesão social. A responsabilidade era, portanto, a argamassa invisível que mantinha de pé os monumentos do poder.

O desenvolvimento estratégico desta máxima revela que o poder, quando dissociado da responsabilidade, degenera inevitavelmente em tirania, abuso e colapso. A ausência do senso de responsabilidade transforma líderes em déspotas, instituições em instrumentos de opressão e sociedades em terrenos férteis para revoluções e ruínas. Assim se deu com Luís XVI, cuja insensibilidade às responsabilidades sociais e políticas acelerou a hecatombe da Revolução Francesa. Em contraste, Winston Churchill, durante a Segunda Guerra Mundial, assumiu o poder não como um trono, mas como um sacrifício; sua famosa frase, “não tenho nada a oferecer senão sangue, esforço, lágrimas e suor”, sintetiza o ethos do líder que reconhece que comandar é, acima de tudo, responder perante a História.

A lição prática desta reflexão é fulminante: quem busca o poder apenas para usufruí-lo, sem assumir a responsabilidade correspondente, está fadado à derrocada. Todo líder, seja de uma nação, de uma empresa ou de uma instituição, precisa compreender que sua autoridade está intrinsicamente vinculada à sua capacidade de responder, de prestar contas, de suportar o peso das decisões que toma. A responsabilidade é o antídoto contra os excessos do poder, o elemento que legitima sua permanência e impede sua corrosão. A liderança verdadeira não repousa no brilho das condecorações, mas na serenidade de quem sabe que cada ato de poder é um compromisso com o destino coletivo.

Eis, portanto, a advertência solene: ao aspirar ao poder, prepare-se para carregar o fardo que o acompanha. Fugir da responsabilidade é trair a própria essência do comando e abrir caminho para o caos. O poder é uma dádiva, mas também uma provação; uma conquista, mas também um dever. Que os líderes de hoje e de sempre se lembrem: o poder não pertence a quem o toma, mas àqueles a quem ele serve. Quem não compreende isso, não merece comandar.

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