Por que sempre elegemos quem nos alimenta, mesmo quando ele nos leva ao abate

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A frase “se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de lavagem seria sempre eleito, não importa quantos porcos ele já tenha abatido no recinto ao lado” funciona como uma metáfora crua, porém eficaz, para compreender dinâmicas recorrentes da política. Ela expõe uma lógica central do poder: a capacidade de garantir a sobrevivência imediata costuma falar mais alto do que a memória da violência estrutural. Quem controla os meios básicos de subsistência frequentemente conquista também a lealdade, mesmo quando é responsável pelo sofrimento que ameaça esse mesmo grupo. Na ciência política, essa dinâmica é amplamente discutida a partir da ideia de dependência. Max Weber, ao analisar as formas de dominação, explicava que o poder se sustenta não apenas pela força, mas pela crença na legitimidade daquele que manda. O “homem do balde” não precisa esconder os abates; basta que seja visto como indispensável. A violência se torna um dado colateral, quase naturalizado, enquanto o gesto cotidiano...

O crepúsculo da política: quando o poder se torna autônomo


A frase “O poder está cada vez mais separado da política, e a política está cada vez mais impotente diante do poder” é o diagnóstico lúcido de uma era marcada pelo divórcio entre as instituições políticas tradicionais e os verdadeiros centros de comando que moldam o destino das sociedades. A política, entendida como a arena pública onde se debatem e decidem os rumos coletivos, perde protagonismo para formas de poder cada vez mais difusas, invisíveis e tecnocráticas, que operam à margem do escrutínio democrático.

Historicamente, o poder sempre buscou vestir a roupagem da política para se legitimar. De Alexandre, o Grande a Luís XIV, passando por Napoleão Bonaparte, o exercício do poder requeria um teatro político: conselhos, parlamentos, assembleias ou plebiscitos que, mesmo manipulados, serviam para emprestar legitimidade às decisões. O poder, portanto, era inseparável da política como forma de mediação entre governantes e governados.

Entretanto, o desenvolvimento das corporações multinacionais, dos mercados financeiros globais e das redes digitais de informação criou novos vetores de poder que não precisam mais da política tradicional para operar. A política tornou-se, para esses agentes, um obstáculo ou uma fachada, enquanto o poder verdadeiro deslocou-se para espaços tecnocráticos e financeiros, onde decisões com impacto planetário são tomadas longe das urnas e do debate público. As agências de rating podem destruir economias nacionais com um simples rebaixamento; algoritmos invisíveis decidem o que será visto, lido ou comprado; e bancos centrais redefinem o valor das moedas sem consulta a qualquer parlamento.

O fenômeno contemporâneo é a ascensão do “poder apolítico” — uma capacidade de comando que não se submete às lógicas tradicionais de representação e soberania. Exemplo eloquente disso é o poder das grandes empresas de tecnologia: elas controlam as infraestruturas do discurso público, as comunicações privadas e até a segurança nacional de alguns países, mas não são submetidas a parlamentos ou eleições. O poder soberano, como descreveu Carl Schmitt, é aquele que decide sobre a exceção — e hoje, frequentemente, são CEOs, tecnocratas e financistas, não presidentes ou primeiros-ministros, que tomam essas decisões cruciais.

A lição estratégica que emerge desse diagnóstico é clara: quem aspira ao poder ou à liderança institucional não pode mais restringir sua ação à política formal. O verdadeiro jogo de poder acontece em múltiplos tabuleiros, muitos deles escondidos sob a superfície das instituições democráticas. O líder que não compreender a lógica desses novos centros de poder será, inevitavelmente, um títere ou um espectador impotente. Por isso, é necessário cultivar uma visão sistêmica e transversal, capaz de mapear os fluxos reais de influência, identificar os nós de comando invisíveis e compreender os mecanismos que permitem que o poder se exercite sem precisar da política.

A política, por sua vez, só poderá reconquistar alguma relevância se assumir uma postura de enfrentamento lúcido. Isso exige reformular suas práticas, romper com o teatro vazio da representatividade e buscar retomar o controle sobre os mecanismos que hoje lhe escapam. A refundação da política passa, inevitavelmente, pela capacidade de regular e submeter os novos centros de poder a algum tipo de controle coletivo, ou, no mínimo, de negociação.

Concluo, pois, com uma advertência que ecoa como um chamado: aos que ainda acreditam na política como força civilizatória, saibam que o inimigo não está mais apenas do outro lado da bancada parlamentar, mas disperso nas redes de dados, nas bolsas financeiras e nos conselhos administrativos que nunca enfrentam eleições. Ignorar essa realidade é condenar-se à irrelevância. O poder não desapareceu; apenas mudou de rosto — e quem não souber reconhecê-lo será, cedo ou tarde, esmagado por ele.

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