A arte de iludir: por que a verdade nunca foi suficiente para conquistar o poder


A frase “Quem souber enganá-los se tornará seu mestre, quem tentar destruir suas ilusões será sempre sua vítima” capta uma das verdades mais duras e frequentemente ignoradas da política: a ilusão, muitas vezes, tem mais poder do que a realidade. Essa máxima, atribuída de forma apócrifa a autores diversos, sintetiza uma longa tradição de pensamento político que reconhece a manipulação da percepção como uma das ferramentas mais eficazes para quem deseja governar.

Desde Platão, que advertia no mito da caverna sobre os perigos de confrontar os prisioneiros com a luz do real, passando por Maquiavel, que aconselhava o príncipe a parecer virtuoso mais do que ser virtuoso de fato, até os estudos de Guy Debord sobre a “sociedade do espetáculo”, o consenso entre os pensadores políticos é quase unânime: o poder não se sustenta apenas na verdade, mas na capacidade de construir narrativas que ressoem com os desejos, medos e crenças do povo.

Essa lógica pode parecer cínica, mas ela explica, por exemplo, o sucesso de líderes populistas em diferentes contextos históricos. Hitler, Mussolini, Getúlio Vargas, Perón, Chávez, Bolsonaro, Trump — todos eles souberam oferecer ao público imagens simplificadas da realidade, com heróis, vilões, promessas de redenção e um inimigo interno ou externo a ser combatido. Nenhum deles chegou ao poder dizendo que o mundo era complexo, ambíguo ou difícil de resolver. Ao contrário: apresentaram-se como figuras messiânicas, capazes de restaurar a ordem ou devolver a dignidade perdida.

Max Weber, em sua famosa distinção entre a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade”, já apontava que o político que se guia apenas por princípios morais, sem considerar as consequências de seus atos, pode ser tragado pelas estruturas de poder que ele não compreende. E isso se conecta à ideia de que quem tenta romper com as ilusões — ou seja, quem tenta governar apenas com base na razão e nos fatos — frequentemente se torna alvo do próprio povo que pretende libertar. Nisso, a história de Sócrates é emblemática: condenado por corromper a juventude e questionar os deuses da cidade, foi vítima de sua insistência em desmascarar ilusões coletivas.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu também ofereceu contribuições relevantes ao mostrar como as representações simbólicas — como discursos políticos, imagens e mitos nacionais — são formas eficazes de dominação. Para ele, o poder simbólico opera justamente porque é invisível, naturalizado. Quem detém a capacidade de definir o que é “normal”, “justo”, “bom” ou “aceitável” detém uma forma de poder ainda mais eficaz do que o poder militar ou econômico.

Isso nos leva a uma conclusão desconfortável: o jogo político é jogado menos com verdades e mais com percepções. O público, em grande parte, não quer ser confrontado com a realidade nua e crua, mas com versões dela que reforcem sua visão de mundo, seus valores e suas esperanças. Daí o poder da propaganda, da retórica emocional e das fake news — não como aberrações do presente, mas como expressões contínuas de uma política fundada, desde sempre, no teatro e na encenação.

Quem entende isso, manipula; quem ignora, é manipulado. A verdade, por mais nobre que seja, quase nunca vence na arena política por si só. Ela precisa de forma, emoção, estratégia. E mesmo assim, corre o risco de ser rejeitada se não se encaixar na ilusão coletiva do momento.

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