Não dê ouvidos à serpente: a primeira aula sobre poder e manipulação

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A frase “não dê conversa com cobra” pode soar como um conselho simples, quase folclórico, mas carrega uma das lições mais antigas sobre poder e manipulação já registradas. Logo no início da Bíblia, a narrativa do Gênesis apresenta a serpente como símbolo da persuasão estratégica, alguém que não impõe pela força, mas conquista pela palavra. E é justamente aí que mora um dos fundamentos mais duradouros da política: o poder raramente começa com coerção, ele começa com convencimento. Ao observar essa passagem sob a lente da ciência política, é possível traçar paralelos com o pensamento de autores como Maquiavel, que já alertava que o governante eficaz precisa saber agir como “raposa e leão”. A serpente, nesse caso, encarna perfeitamente a raposa: astuta, paciente e habilidosa na arte de influenciar. Ela não obriga, não ameaça diretamente — ela planta uma ideia. E uma ideia, quando bem colocada, pode ser mais poderosa do que qualquer imposição. Essa lógica também aparece nas análises de Mic...

O fim do voto econômico e da gratidão política automática


Durante grande parte da história eleitoral, uma máxima parecia inquestionável: a economia determina o voto. Se a situação econômica do país melhora, o governo no poder tende a ser recompensado nas urnas; se piora, a punição vem na forma de derrota eleitoral. Esse fenômeno, conhecido como "voto econômico", foi estudado por cientistas políticos como Anthony Downs e Douglas Hibbs, que argumentaram que ele era um dos principais motores das escolhas eleitorais. No entanto, a política contemporânea vem desafiando essa lógica.

Nos últimos anos, têm se multiplicado os casos de governantes que, mesmo entregando crescimento econômico e aumento de renda, perdem eleições ou enfrentam alta impopularidade. Ao mesmo tempo, outros que lidam com crises econômicas graves conseguem manter apoio popular e até se reeleger. Um exemplo clássico desse fenômeno ocorreu com Donald Trump nos Estados Unidos. Antes da pandemia da Covid-19, a economia americana apresentava números favoráveis, com baixo desemprego e crescimento sólido. Pela lógica do voto econômico, ele deveria ter sido reeleito sem grandes dificuldades. No entanto, perdeu para Joe Biden em 2020. Por outro lado, líderes como Viktor Orbán, na Hungria, e Recep Tayyip Erdoğan, na Turquia, conseguiram manter suas bases eleitorais mesmo diante de crises econômicas severas.

Isso sugere que o eleitor moderno não decide mais seu voto apenas com base na economia, e a gratidão política automática também vem desaparecendo. A melhoria na qualidade de vida ou o cumprimento de promessas não garantem mais lealdade eleitoral. Esse fenômeno é visível em democracias ao redor do mundo. No Brasil, Dilma Rousseff foi reeleita em 2014 mesmo com sinais de desaceleração econômica, mas sofreu impeachment pouco tempo depois, quando a crise econômica se agravou. Já em 2022, Jair Bolsonaro perdeu sua tentativa de reeleição mesmo com uma recuperação econômica nos meses finais de seu mandato. O que explica essa mudança?

A polarização política e a identidade partidária têm assumido um papel central nas escolhas do eleitor. O sociólogo Pierre Bourdieu argumentava que os indivíduos não fazem escolhas isoladas, mas dentro de um contexto social e simbólico que molda suas preferências. No cenário atual, as decisões eleitorais são cada vez mais guiadas por fatores emocionais, ideológicos e identitários, diminuindo o peso da economia. Eleitores se identificam com um candidato ou partido não apenas por sua gestão, mas por enxergarem nele uma representação de seus valores e visão de mundo.

Além disso, as redes sociais e a hiperexposição midiática modificaram a forma como os políticos são avaliados. Um bom desempenho econômico pode ser ofuscado por crises de imagem, escândalos ou batalhas culturais. Políticos que dominam a narrativa e criam um senso de pertencimento com seus eleitores conseguem manter apoio mesmo em tempos difíceis, enquanto outros, apesar de bons indicadores econômicos, perdem espaço por não conseguirem mobilizar emoções e identidades.

O fim do voto econômico e da gratidão política automática não significa que a economia deixou de ser importante. Mas ela se tornou apenas um dos vários fatores que influenciam o eleitorado. Cada vez mais, eleições são disputadas no campo simbólico e emocional, onde lealdades são construídas não apenas por resultados concretos, mas por percepções e narrativas. Nesse novo cenário, políticos que apostam apenas em entregar bons indicadores correm o risco de descobrir, da pior forma, que isso já não basta para vencer eleições.

Comentários

  1. Excelente artigo, uma visão realista da percepção do eleitor hoje em dia.

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