O diabo está de férias: quando o poder humano supera o mal mitológico

Imagem
A provocação “o diabo está de férias, pois o homem está fazendo o trabalho dele” é mais do que uma frase de efeito: é um diagnóstico mordaz sobre o nosso tempo. Essa visão sugere que, em pleno século XXI, não é mais necessário recorrer a entidades sobrenaturais para explicar o mal no mundo. A própria ação humana, guiada por interesses políticos, econômicos e ideológicos, tem se mostrado suficientemente eficiente na produção de barbárie, manipulação e dominação. Essa ideia encontra eco no pensamento de Hannah Arendt, especialmente quando ela descreve a "banalidade do mal". Para Arendt, o mal não se manifesta apenas por meio de figuras monstruosas ou satânicas, mas pode ser perpetuado por indivíduos comuns, burocratas obedientes, que seguem ordens sem refletir sobre suas consequências éticas. Nesse sentido, o mal deixa de ser uma exceção para se tornar um mecanismo cotidiano, sistemático — e, talvez por isso, ainda mais perigoso. Na arena política contemporânea, os exemplos são...

O fim do voto econômico e da gratidão política automática


Durante grande parte da história eleitoral, uma máxima parecia inquestionável: a economia determina o voto. Se a situação econômica do país melhora, o governo no poder tende a ser recompensado nas urnas; se piora, a punição vem na forma de derrota eleitoral. Esse fenômeno, conhecido como "voto econômico", foi estudado por cientistas políticos como Anthony Downs e Douglas Hibbs, que argumentaram que ele era um dos principais motores das escolhas eleitorais. No entanto, a política contemporânea vem desafiando essa lógica.

Nos últimos anos, têm se multiplicado os casos de governantes que, mesmo entregando crescimento econômico e aumento de renda, perdem eleições ou enfrentam alta impopularidade. Ao mesmo tempo, outros que lidam com crises econômicas graves conseguem manter apoio popular e até se reeleger. Um exemplo clássico desse fenômeno ocorreu com Donald Trump nos Estados Unidos. Antes da pandemia da Covid-19, a economia americana apresentava números favoráveis, com baixo desemprego e crescimento sólido. Pela lógica do voto econômico, ele deveria ter sido reeleito sem grandes dificuldades. No entanto, perdeu para Joe Biden em 2020. Por outro lado, líderes como Viktor Orbán, na Hungria, e Recep Tayyip Erdoğan, na Turquia, conseguiram manter suas bases eleitorais mesmo diante de crises econômicas severas.

Isso sugere que o eleitor moderno não decide mais seu voto apenas com base na economia, e a gratidão política automática também vem desaparecendo. A melhoria na qualidade de vida ou o cumprimento de promessas não garantem mais lealdade eleitoral. Esse fenômeno é visível em democracias ao redor do mundo. No Brasil, Dilma Rousseff foi reeleita em 2014 mesmo com sinais de desaceleração econômica, mas sofreu impeachment pouco tempo depois, quando a crise econômica se agravou. Já em 2022, Jair Bolsonaro perdeu sua tentativa de reeleição mesmo com uma recuperação econômica nos meses finais de seu mandato. O que explica essa mudança?

A polarização política e a identidade partidária têm assumido um papel central nas escolhas do eleitor. O sociólogo Pierre Bourdieu argumentava que os indivíduos não fazem escolhas isoladas, mas dentro de um contexto social e simbólico que molda suas preferências. No cenário atual, as decisões eleitorais são cada vez mais guiadas por fatores emocionais, ideológicos e identitários, diminuindo o peso da economia. Eleitores se identificam com um candidato ou partido não apenas por sua gestão, mas por enxergarem nele uma representação de seus valores e visão de mundo.

Além disso, as redes sociais e a hiperexposição midiática modificaram a forma como os políticos são avaliados. Um bom desempenho econômico pode ser ofuscado por crises de imagem, escândalos ou batalhas culturais. Políticos que dominam a narrativa e criam um senso de pertencimento com seus eleitores conseguem manter apoio mesmo em tempos difíceis, enquanto outros, apesar de bons indicadores econômicos, perdem espaço por não conseguirem mobilizar emoções e identidades.

O fim do voto econômico e da gratidão política automática não significa que a economia deixou de ser importante. Mas ela se tornou apenas um dos vários fatores que influenciam o eleitorado. Cada vez mais, eleições são disputadas no campo simbólico e emocional, onde lealdades são construídas não apenas por resultados concretos, mas por percepções e narrativas. Nesse novo cenário, políticos que apostam apenas em entregar bons indicadores correm o risco de descobrir, da pior forma, que isso já não basta para vencer eleições.

Comentários

  1. Excelente artigo, uma visão realista da percepção do eleitor hoje em dia.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A maldição do poder: quando os deuses riem do supremo

O peso político da mentira: quando a dívida com a verdade se transforma em capital de poder

A ética da convicção em Max Weber: entre a pureza dos princípios e a complexidade da política