O inimigo do seu inimigo é seu amigo: a lógica oportunista do poder
Poucas frases resumem tão bem a lógica impiedosa da política real quanto “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Essa máxima, de origem incerta, atravessa os séculos como uma fórmula clássica da diplomacia estratégica e da aliança por conveniência. Mais do que uma simples expressão popular, ela encapsula uma das engrenagens fundamentais da manutenção e conquista do poder: a aliança circunstancial. E, nesse contexto, os princípios cedem espaço à utilidade.
Historicamente, esse tipo de lógica foi responsável por reviravoltas políticas improváveis. Um dos exemplos mais emblemáticos é a aliança entre os Estados Unidos e a União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. Até então, eram ideologicamente antagônicos — capitalismo liberal versus comunismo soviético — mas encontraram um ponto comum na derrota da Alemanha nazista. Winston Churchill, célebre por sua sagacidade, resumiu bem a lógica dessa aliança ao afirmar que, se Hitler invadisse o inferno, ele faria pelo menos uma referência favorável ao diabo no Parlamento britânico. O inimigo comum, no caso, Hitler, justificava qualquer aliança.
Esse princípio, porém, é mais pragmático do que moral. Maquiavel, em "O Príncipe", já sugeria que, na política, a virtude deve ceder lugar à necessidade. Para manter o poder, o governante pode — e, em certos casos, deve — abandonar os aliados antigos ou fazer acordos com antigos adversários. O valor está na eficácia, não na lealdade. O autor florentino não via a política como um campo de princípios, mas como um jogo de sobrevivência, onde alianças táticas são peças móveis num tabuleiro sempre instável.
Karl Marx, por outro lado, via essas alianças de conveniência como sintomas de contradições estruturais no sistema político e econômico. Para ele, a burguesia não hesitaria em apoiar forças que julgava reacionárias, se isso servisse para conter o avanço do proletariado. A história da Revolução Francesa e dos processos contrarrevolucionários europeus do século XIX oferece bons exemplos disso. As alianças não são apenas jogos entre elites, mas também reações a movimentos sociais mais profundos.
Já Max Weber, ao distinguir entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, oferece uma chave importante para entender esse tipo de lógica. Enquanto a ética da convicção se baseia em princípios morais inegociáveis, a ética da responsabilidade considera as consequências práticas das ações políticas. O governante que age segundo essa última lógica pode, sim, se aliar a inimigos morais se isso servir a um fim maior — garantir a ordem, a estabilidade ou a sobrevivência política.
Nos bastidores da política contemporânea, esse tipo de raciocínio segue vivo. Alianças entre partidos ideologicamente opostos são comuns em sistemas parlamentares, especialmente quando o objetivo é formar maioria e evitar a ascensão de um adversário comum. Na América Latina, vê-se com frequência coalizões que unem setores da esquerda e da direita apenas para evitar o retorno de uma liderança populista ou autoritária. No Brasil, o chamado “centrão” é mestre nessa arte: transita entre governos de matizes ideológicos distintos, sempre em nome de uma governabilidade que, na prática, se traduz em manutenção de espaços de poder e verbas orçamentárias.
O problema dessa lógica é que ela é inerentemente instável. O aliado de hoje pode ser o inimigo de amanhã, e a ausência de laços ideológicos fortes torna qualquer pacto um terreno frágil. Como já advertia Thomas Hobbes, no estado de natureza — ou seja, num mundo onde o poder é fluido e a ameaça é constante — os indivíduos (e, por extensão, os grupos políticos) se aliam não por afeto, mas por medo e interesse. O pacto é sempre temporário, e a confiança, escassa.
Assim, a máxima “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” funciona como uma espécie de termômetro do desespero político ou da astúcia estratégica. Ela não aponta para alianças duradouras, mas para acordos táticos. Funciona bem quando a prioridade é eliminar uma ameaça comum, mas se torna um problema quando se transforma em hábito — porque, nesse caso, a política deixa de ser construção de projeto para se tornar pura reação.
Na arte do poder, saber com quem se aliar é tão importante quanto saber de quem se afastar. A história mostra que alianças forjadas apenas pela inimizade mútua com um terceiro raramente sobrevivem à vitória. Afinal, quando o inimigo comum desaparece, o que sobra é o confronto entre aliados por conveniência. E aí, como dizia Maquiavel, é cada um por si, e o poder para quem for mais astuto.

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